A Fera
O Sangue Contra o Gelo: Entre a covardia higienizada e a vitalidade fauve.
14h58. 22 de junho de 2026
O celular acende. O retorno do meu desabafo chega assim, embrulhado nessa tua covardia higienizada. “Ok. Mas era algo que me incomodava e, sinceramente, ninguém é obrigado a continuar um relacionamento pq a outra pessoa tem alguma neurodivergencia”.
O golpe bate seco. Neurodivergência. Meu autismo e minha rigidez viraram o álibi perfeito pra tua falência afetiva. Terceirização da culpa operando em tempo real. Você pega os nossos curtos-circuitos e joga na conta da minha biologia; é mais fácil do que encarar a própria indisponibilidade. Você terceirizou a culpa para a minha intensidade porque a sua própria fragilidade é um abismo que você não tem coragem de olhar. O seu medo, a sua baixa autoestima e a sua insegurança crônica precisavam de um alvo, e você fez da nossa relação o seu teatro de projeções. Era mais seguro me rotular de disfuncional do que admitir que as fraturas mais profundas sempre pertenceram a você. Retórica capacitista maquiada de honestidade implacável. “Desculpa se essas palavras te machucam, mas é a verdade”. A tua verdade. Cirúrgica, fria, pensada milimetricamente pra você sair de mãos limpas, batendo a porta sem olhar pros destroços.
Aqui na mesa, a lombada de Les Nuits Fauves me encara. A justaposição é de uma perversidade exata. Cyril Collard não perdoa a assepsia dos afetos. O corpo, no livro, abraça a doença, o sangue, o risco. A vida crua, os ritos das noites parisienses, a recusa absoluta em ser vítima ou ceder à moralidade higiênica. Lendo sobre esse desespero visceral de continuar vivo, a violência da tua manobra grita: você tentou me pregar num lugar de incapacidade. O sujeito disfuncional que estraga tudo. Você se lava e segue intacto.
Mas eu recuso o diagnóstico. Não caí na tua provocação sádica de listar “insatisfações”. Eu não estava ali pra debater ruído. Estava ali pra registrar, e de forma irrevogável, que me recuso a ser rebaixado a fardo.
A tua última mensagem entrega a pressa de quem quer fugir: “Bom, melhorou? Tá mais leve?”. A urgência cínica de se livrar do meu incômodo logo, pra poder encerrar o teu ciclo em paz.
Respondi que o que tem me salvado é ir à academia. A carne. A única resposta que sobrou contra a abstração do teu gaslighting. No ferro, chego mais perto da vitalidade fauve do Collard. O músculo rompendo fibra. A gravidade seca. O corpo puxando ar, metabolizando o ódio, cuspindo fora a letargia do luto que você tentou me enfiar goela abaixo. A exaustão física virou minha profilaxia contra o teu gelo.
Só que hoje o peso do ferro não dá conta. Hoje a purgação vai pra pele. Uma tatuagem enorme, um ritual de dor riscado pra abafar o teu eco. A agulha descendo pela lateral do quadril, rasgando a coxa até a panturrilha. Traços brutos, viscerais. Preto e vermelho, sem contorno definido. Fluxo, rizoma, devir puro. Linhas sangrando umas sobre as outras, expandindo num movimento que recusa a estagnação do ponto final que você decretou. Cada estocada é uma fissura literal, uma agressão voluntária pra atropelar a dor surda da rejeição. O sangue brotando sob a tinta é a minha celebração fauve. Eu firo o próprio corpo pra lembrar que ele flui, que ele é meu. Não a narrativa de insuficiência que você tentou tatuar aqui.
A tristeza ainda é uma presença espessa, uma mobília pesada no meio da sala. Sinto a tua falta, é inegável. Mas a ausência dessa tua agressividade passiva me traz um alívio quase obsceno. Estávamos os dois infelizes. Esgotados. Nosso ciclo quebra aqui. Siga com a conveniência das tuas desculpas prontas. Eu fico com a carne perfurada e em devir. Com o suor. Com a fera que, mesmo exausta, recusa a domesticação de uma culpa que nunca foi minha.

