A Topia Implacável e o Tempo Crip
Notas sobre a asfixia e a insolvência da carne
O peito ronrona. Um chiado áspero, metálico, que tenta imitar a respiração dos gatos enroscados na cama, mas falha na maciez. A tosse dita os segundos. A mesa de cabeceira virou um mostruário químico: Aerolin, prednisona, oseltamivir, ipratrópio. É o choque frontal do CID J45.9 contra a influenza. O tempo crip descendo a fórceps. O relógio do mundo dobrado à lentidão absoluta de um corpo que, simplesmente, parou.
Já vinha cedendo, na verdade. Desde domingo, essa recusa do ar, esse chiado encrostado nos brônquios que teimei em rebaixar a um resfriado banal — a porta destrancada pela minha exaustão emocional. Na segunda, chutei a prostração para debaixo do tapete. Passei o dia inteiro com o Altair. O texto da apresentação: Foucault cruzado com teorias queer e crip. Discutíamos ali, na tela, o corpo como o “ponto zero do mundo”, a estética da desobediência. Enquanto isso, a minha própria carne rosnava o óbvio: a topia é implacável. Não há fuga da matéria. Toda lucidez teórica esbarra, em algum momento, na falta de oxigênio.
Ontem a negação bateu no muro. Forcei a máquina até estourar: verti o texto para o francês, limpei a gramática, limpei a casa. A fatura chegou a galope. Tive que cancelar a tutoria do Pré-Pós. A tal insolvência produtiva que tanto romantizamos na academia, cobrada direto na carne. O ar sumiu. A tosse tomou o leme de tudo. O corpo deixou de ser conceito e virou só isso: matéria asfixiada.
Hospital. Triagem, exames, medicação de resgate. Veredito: influenza atropelando a asma velha. A médica falou a palavra “internação” e o pânico subiu seco pela garganta. Pensei nos gatos sozinhos, na maldita apresentação. Bati o pé. Ela cedeu, me enjaulando num isolamento estrito até sexta-feira. Ainda tive que negociar a compra dos remédios para a manhã seguinte, rezando para a bolsa da UFPR pingar na conta.
Uma madrugada de terror puro. Quarto escuro. Puxo o ar e ele não vem. Bato o Symbicort e é o mesmo que respirar fumaça, inútil. O corpo despido de qualquer utopia; apenas a autodissolução crua. Acordei cedo, comuniquei a orientadora e o Altair: a apresentação seguiria sem mim. Fui para a farmácia arrastando as pernas pelo bairro. A voz da médica ecoava em loop na minha cabeça: “Toma tudo direitinho, não vamos deixar isso aí virar uma pneumonia ou um quadro mais grave!”. Esse “quadro mais grave” foi o que me gelou a espinha. O arsenal rasgou a conta bancária; Tamiflu a preço de ouro, o saldo esvaziado. Voltei, inalei o alívio químico provisório, engoli as pílulas.
É bizarro como a doença dobra as distâncias. Vanko. Voltamos a nos falar, fizemos as pazes. Sem a fisicalidade do encontro, o nosso dialeto particular engatou no ato: a farmacologia da vida. Ontem dissecamos a influenza e a asma; hoje o cardápio foi bipolaridade, depressão e suas respectivas bulas. Um conforto esquizofrênico de mapear as dores, neurológicas ou respiratórias, juntos. O eco de dois anos de história.
Ficar de fora da apresentação doeu. Mas a ironia escorre cínica nisso tudo. Escrevi sobre o corpo que recusa os imperativos da normalidade produtiva, sobre a potência política da exaustão crip. E aqui estou eu, confinado neste quarto, habitando a minha própria heterotopia de desvio. O corpo trava a máquina com as próprias mãos.
E no vácuo da pausa, a mente esbarra na ruptura com o Greg. O lixo espalhado pela casa, que ele deixava pelo caminho numa espera muda para que eu me abaixasse e catasse. O jeito calculado de atirar palavras para me fixar ali, naquele lugar de incapaz. O que ele vomitou em mim na nossa última briga continua entalado, ocupando um espaço nos pulmões que deveria ser de ar. A tristeza é tão espessa, tão densa, que sequer sobra fôlego para a raiva. Sobra, paradoxalmente, esse garimpo desesperado por memórias bonitas, numa tentativa patética de adoçar o fim. Só para não fechar essa história com esse gosto de café queimado, amargo, que empedra na língua.
Se eu olho para o rastro dos últimos meses, o diagnóstico é óbvio: fui atropelado. O fim com o Vanko, a via-crúcis hospitalar com a minha mãe, os escombros do Greg. No meio desse entulho, larguei a carne à deriva. Deixei de ir à Farmácia do Paraná buscar a medicação de controle. Parei o exercício. O frio que corta Curitiba lá fora entra pelas frestas e avisa: essa matéria é obra inacabada, mas esgarça se você não cuidar. Prometi a mim mesmo, entre uma baforada de Aerolin e outra: assim que esse peito desatar, volto pra academia. Arrumo o bunker dos remédios. Não por uma obediência dócil a qualquer saúde normativa. Mas porque passou da hora de habitar essa topia implacável com um pingo que seja de dignidade.

