Cinzas e Sapólio
O desmoronamento não é um estrondo, é uma sucessão de cortes frios. O peso de um luto que começou antes do fim
A manhã tem cheiro de cinzas e Sapólio. No domingo, Gregório quase incendiou a casa; hoje, o cheiro de queimado é o rastro de um descuido que se tornou regra. Fui reler o registro do diário sobre o nosso último aniversário de namoro e o fim já estava documentado ali, uma nota de rodapé que o meu próprio medo se encarregou de evitar por meses. Ao abrir os olhos, a indiferença ganhou contorno físico: Gregório afundado no quarto dele, olhos vidrados no videogame, os polegares massacrando os controles. Como se nada estivesse em ruínas.
O desmoronamento não foi um estrondo, foi uma sucessão de cortes frios pelo WhatsApp. Eu tentava nomear o que estava nos matando: a indiferença dele, a agressividade seca. Em vez de ouvir, ele contorceu meu pedido por previsibilidade e base segura e chamou minha fala de “ameaça” ou “punição”. Ele agia nos últimos meses como um inquilino, alguém que apenas aluga um quarto e pouco se fode para a fachada do prédio inteiro, para o “nós”. “Você acha que é solteiro”, eu cobrei. “Assuma a responsabilidade de alguém solteiro. Não fique me enrolando.” A resposta dele veio com a covardia de quem só espera a deixa: “Tá bom então. Vamos terminar de boas então.”
Ele usava o término como arma, ameaçando ir embora a cada duas semanas. O desespero me fez bater na ferida aberta; joguei na cara que ele estava me desvalorizando para me descartar por outra pessoa, repetindo a exata coreografia que o Vanko fez comigo no passado. Mas Gregório se esquivava. Tudo escalou para o absurdo por um detalhe banal na sexta: minha mãe não estava bem e ligou. Eu estava no banheiro, me depilando, e não pude atender. Gregório transformou isso num fardo intolerável. “Eu me irritei, não vou mais”, ele cravou, o que tinha falado alguns minutos antes. Quando cobrei o mínimo de empatia, que não agisse como se não tivesse nada a ver com a minha vida, a resposta foi o deboche puro: “Tome como lição e comece a atender sua mãe, já que ela tá tão doente assim como você diz”. Agradeci por ele agir feito um cuzão. E a crueldade veio coroada: “Ixi... magina se eu tivesse agindo mesmo xD”. Nove anos liquidados num emoji. Há meses, tudo o que eu fazia e falava ele transformava em irritação. Uma raiva que vinha de um lugar sem nome. Talvez dos meus dois anos de relacionamento com Vanko.
Sábado, 14h06. A sentença na tela: “Domingo vou pro M.”. A previsibilidade que meu cérebro autista implora escorrendo pelo ralo. Depois pessoalmente, veio à tona a desculpa capacitista dele: “não posso dar o suporte que você precisa”. Capacitismo puro. Como se a ruptura fosse um sintoma meu, como se a minha neurodivergência fosse o peso que ele, o “exausto”, não podia mais carregar. Não tive fôlego para a pedagogia do diagnóstico. Digitei: “Não adianta, quero que a gente separe de vez”. Fui eu. O limite traçado antes que o resto do meu respeito próprio fosse completamente triturado. A verdade é que desde que começou a se relacional com M., começou a me desvalorizar e se irritar com tudo que eu fazia ou falava.
Eu li Jessica Fern, tentando traduzir a teoria em tijolos, erguer um apego seguro. Ilusão. A teoria não conserta o que o outro já abandonou. O que ele fez é a “violência ética” de que fala Butler: ele começou o luto do fim antes de me comunicar esse fim. Para não encarar a própria fobia da vida adulta, de dividir as contas e o esforço do cotidiano, ele preferiu me engessar no lugar do fardo inadministrável. No sábado à noite, ele saiu. Alegou solidão, mas para mim pareceu comemoração. Depois soube que ele descreveu o término para um amigo em comum como “tranquilo”. Absurdo, depois de uma tarde inteira de acusações e agressividade. E eu fiquei nas ruínas, calculando como posso alugar aquele quarto para outra pessoa para conseguir pagar as contas.
O apagão físico foi minha defesa. Falei com o Murilo e o abismo dele é um reflexo do meu. Ele também apagou, dormiu o dia inteiro para fugir da própria casa; outro corpo exausto testemunhando a morte de um namoro longo sob o mesmo teto. Na segunda, arrastei meus cacos para a terapia. Um desastre. O choro deformando o rosto. Ontem fui à casa de um “amigo”, mas o frio de Curitiba gela o sangue e o ânimo não veio. Voltei me sentindo derrotado, meio febril. Me enfiei sob as cobertas com um filme trash, implorando para a luz da tela dopar meus pensamentos.
Levei o relato para a comunidade não-mono, buscando entender se a minha demanda por previsibilidade era um delírio. A resposta veio como um coro: “Ele só foi cuzão”, “Cuzãozasso”, “Ele foi capacitista”. Alguém cravou que jogar a dificuldade de dar suporte na cara ao terminar é de uma injustiça brutal; vem do lugar que acha que o autista é incapaz de autonomia. Gregório me achou incapaz. Lavou as mãos e preferiu a saída fácil de voltar para a casa da irmã, nos cafundós de Santa Felicidade.
Hoje, a garganta rasga. Dou de cara com ele no videogame. A negação como escudo, disse o Murilo. Mas não me importa a defesa psíquica do Gregório. A visão daquela animação me causa dor física. As caixas já estão na sala, mas ele não parece ter pressa para fazer a mudança. Ele achou que eu engoliria tudo e o deixaria parasitando a minha estabilidade. O feitiço virou: se ele não pode me dar o suporte que preciso, eu também me recuso a ser o pilar dele. Interrompi o jogo: “não vai começar a arrumar tuas coisas?”. “Sim”, ele cuspiu, o rosto retorcido. Meti o pé na porta.
Trinta dias sob o mesmo teto. O luto habitando o corredor. Tenho medo que tudo piore com essa convivência e que não reste nada além de ressentimento. Leio Edelman e penso na negatividade do meu luto queer, abraçando a força que nega o futuro. Foda-se a esperança de que o tempo cura. Não há amanhã para nós. Ontem, a vontade de tocar a pele dele ainda tentou me assombrar, mas me contive. Dei um abraço raso e apaguei a luz. A teoria não nos salvou, e o silêncio entre os botões do controle dele e a minha resistência é ensurdecedor.

