Dois anos
Dois anos reduzidos a uma lista de exigências físicas e práticas. O relato seco do dia em que a irresponsabilidade afetiva cobrou a conta e o luto exigiu distância.
5 de março de 2026. Amanhã fariam dois anos que nos conhecemos.
Acabou. Ontem a relação com Vanko terminou de fato. Não o quero como namorado. Não o quero como amigo. Um delírio de dois anos. Alguns momentos bons, sim, mas insuficientes para o tamanho da minha entrega.
Ontem, às 17h45, veio a clareza. O motivo vomitado na tela do celular: a queda de interesse combinada com a explosão da bagunça do “meu” ciúme.
Eu tinha uma teoria. A teoria do namorado ideal. Achava que não cabia na fôrma dele. Ele rebateu. Digitou que eu era o mais próximo do ideal que ele já teve. A lista dele: “Moreno, mais velho, intelectual, pauzudo e gostoso, autista, capaz de se virar na vida.” Mais próximo do ideal do que o “brinquedinho” atual dele. Mais do que todos os outros. Mas ele frisou que não se guia por ideais. Se guiasse, teria ficado.
Ele acha que o ideal se resume a um checklist de aparência física, dotes sexuais e utilidade prática. Perdeu o interesse. E culpou o ciúme. Gaslighting elevado à enésima potência.
Eu não aceito o rótulo do ciúme. A “bagunça” foi um burnout autista. Eu sempre fiquei na minha. Me chamar de ciumento agora é reescrever a história, inverter a culpa. Ele ignora a própria parcela de responsabilidade na dinâmica. Recusa-se a olhar no espelho.
Mas a crueza das palavras serviu. Foi a primeira vez que ele foi direto e brutal desde o primeiro de janeiro. A transcrição exata:
“É simples. Desde primeiro de janeiro eu repito o porquê acabou: a queda do meu interesse por você combinada com a explosão da bagunça do seu ciúme. Eu repito e repito e repito e você me pune e julga por me irritar quando você pede pra eu repetir novamente. Eu repito novamente e você novamente não aceita, recusa, tece uma nova teoria, intelectualiza como movimento de poder e gaslighting. A hora que você aceitar o que eu digo, você vai começar a melhorar. Você fala que eu te deixei porque você não corresponde ao meu ideal, enquanto que a verdade é que você é o mais perto que eu já cheguei de estar com esse ideal: moreno, mais velho, intelectual, pauzudo e gostoso, autista, capaz de se virar na vida. Você é mais próximo do meu ideal do que o meu ‘brinquedinho’ atual (o termo é dele) e do que todos os meus outros namorados. A questão é que, justamente, eu não me guio por ideais, se não eu teria ficado com você.”
Agradeci. Avisei que estava traumatizado. Que precisava de distância. Que falar com ele não ajudava em nada.
E cortei.
Unfollow no Instagram. Block no WhatsApp. Falta o Grindr. Ele passou nossos dois anos de namoro inteiro online no Grindr. Agora, de repente, desapareceu de lá. Vou dar block de qualquer forma. Não quero ter que olhar para a tela de um aplicativo e ter que lidar nem mesmo com a ausência dele.
Fim das suposições. Desejo felicidades. Longe de mim.

