O apocalipse
A falha como método: ensaios e relatos sobre viver nas rachaduras da norma, lendo teoria dissidente enquanto a água ferve.
O som das unhas dos dois gatos arranhando o carpete do quarto me puxa do sono. O céu de Curitiba, pela fresta da cortina, é daquele branco azulado pré-chuva que parece pesar sobre os ombros antes mesmo de a gente levantar. Arrasto os pés até a cozinha. O dia começa pela urgência do outro: despejo a ração nas cumbucas, o barulho dos grãos preenche o silêncio do apartamento.
Encho um copo de água na torneira e viro os remédios de uma vez. A química psiquiátrica descendo rasgando a garganta para segurar a barra da depressão. Ligo o fogo para ferver a água do café, sento na banqueta e destravo a tela do tablet. A luz azul arde nos olhos por um segundo. O PDF do Apocalipsis queer, do Lorenzo Bernini, continua aberto na mesma página em que apaguei ontem à noite. O texto não oferece conforto, mas é a única âncora que tenho agora.
Enquanto espero a água ferver, retomo a leitura. Bernini faz uma arqueologia incômoda da teoria antissocial. Em vez de buscar a assimilação, ele defende que a força política do movimento queer reside exatamente na sua recusa em se integrar à normatividade. Em uma de suas passagens, Bernini (2013, p. 16) argumenta que o termo foi apropriado por grupos radicais justamente para romper com a agenda higienizada dos movimentos LGBT convencionais, promovendo uma política de antagonismo e de transformação estrutural, e não apenas de direitos civis.
A água ferve. Levanto, passo o pó no coador. O cheiro torrado invade a casa. Volto para o tablet com a xícara fumegante. O autor avança sobre as ideias de Leo Bersani, tensionando a pulsão de morte freudiana com a abjeção. Segundo Bernini (2013, p. 36), Leo Bersani vê a sexualidade dissidente não como um espelho da conjugalidade hétero, mas sim como uma força dissipadora do eu; uma prática solipsista que, ao invés de buscar reconhecimento social, conduz o sujeito à desorganização e à humilhação voluntária.
“«O reto é um túmulo?» celebra o valor do sexo enquanto gozo solipsista, socialmente disfuncional, que isola o sujeito da comunidade: na perturbadora ontologia de Bersani, o sujeito propriamente sexual [...] não tenta conseguir para o próprio eu um reconhecimento social, mas sim põe em ação uma pulsão dissipadora do eu que o conduz à desvalorização de si mesmo e à humilhação.” (BERNINI, 2013, p. 36-37).
Apoio o tablet na mesa e levo a xícara vazia para a pia. A louça acumulada me encara. Ensaboo os pratos com movimentos mecânicos. O Gregório entra na cozinha em silêncio. Ele pega uma maçã na fruteira, não diz nada, e volta para seu quarto.
Seco as mãos, volto pra mesa e percebo a cápsula da venlafaxina intacta ao lado da fruteira. Eu tinha certeza de que tinha engolido tudo junto com o copo d’água há dez minutos. Engoli o quê, então? Fico olhando pra pílula por alguns segundos. Boto ela na boca e engulo a seco.
Deslizo o dedo na tela do tablet, avançando mais algumas páginas. Bernini (2013, p. 45) retoma a figura do zumbi como uma metáfora central da nossa condição: o morto-vivo homossexual como a encarnação do apocalipse, aquele que recusa o futuro, que carrega o contágio e que não se importa com a continuidade da espécie. Fico olhando para as palavras iluminadas no vidro do aparelho. Eu, o carpete cheio de pelos de gato, a louça na pia e o fim de um relacionamento habitando o mesmo teto. O colapso do sujeito na teoria se materializando no meu próprio desmoronamento diário. Fecho o aplicativo, deixo a tela apagar. Hoje, isso me parece apenas exaustivo.

