O Luto e o Telegrama
A tela do celular acende. "Recebi, estou processando". Apenas isso. Quatro palavras.
A tela acendeu enquanto eu estava no banheiro do bar Cataia. Quatro palavras na notificação: “Recebi, estou processando”. Um telegrama metálico respondendo à carta em que deixei minhas vísceras expostas. O estômago gelou no mesmo instante. Voltei para a mesa como quem caminha debaixo d’água. Quando o João retornou, a represa já tinha cedido; meus olhos estavam inundados. Bastou ele perguntar “O que foi?” para que as lágrimas começassem a rolar. Mais uma vez, eu desabava em público. João me puxou para um abraço, oferecendo aquele mantra de quem tenta nos segurar na beirada: disse que tudo isso ia passar.
Escrevi o texto porque quase nove anos não podiam ser simplesmente engolidos pela asfixia do não dito. Quis salvar a narrativa das nossas danças na sala, das viagens, da beleza que a ruína do nosso término ameaçava apagar. Pedi um café no futuro, uma fresta sem cobranças para tentar preservar a amizade. Ele me devolveu um protocolo. A assepsia do Greg funciona como uma trincheira, a profilaxia perfeita para se blindar da minha intensidade.
Acho que estou no corpo a corpo com o luto. Freud escreve que o luto, diferente da melancolia, não dilacera o nosso eu. O meu “eu” continua aqui, ferido, mas de pé. A tortura é a exigência implacável do teste da realidade: a imposição de retirar, a fórceps, a libido grudada em cada objeto, em cada lembrança, atestando que o outro não está mais lá. É um trabalho de desinvestimento exaustivo. Hoje, o peso das horas me esmagou. Tive a clareza amarga de ter perdido tempo insistindo nos últimos dois anos em um afeto que já agonizava. Lamento as ofensas e a crueza das palavras que trocamos na semana passada. A raiva era só o nosso último fio esgarçado, a última tentativa torta de conexão. Não havia mais solo para nós.
E, no meio dessa temporalidade estagnada, a cabeça não para de orbitar em torno dele. Como o Greg está agora? O que atravessa aquele silêncio? Sente algum alívio? Alguma fresta de tristeza ou de falta? Ele pensa em nós em algum momento do dia, ou já está apenas mergulhado na euforia das festas, das bebidas e dos rapazes?
Ele processa no silêncio dele. Eu processo no barulho das palavras e na química. Engulo a olanzapina, a quetiapina e o donaren retard para tentar apagar as noites e anestesiar o abismo. Mas a carne exige tração. Hoje vou me inscrever na academia. Preciso colocar esse corpo para se movimentar, empurrar o sangue, forçar o luto a escorrer pelo suor.

