Opaco
Abdicar do controle sobre o corpo e o tempo do outro exige aceitar a própria passividade diante do fim de uma estrutura. Um recuo tático da domesticidade para não ceder à pulsão de morte.
O cabelo no chão da pia. Tesoura e a nuca exposta. O espelho me devolve um estranho, o rosto tateando a aspereza dos fios recém-cortados — uma cisão material para dar contorno a essa nova topografia que eu e Gregório decidimos habitar. Paredes divididas. Um quarto para mim, um banheiro só meu. Desvincular o cotidiano para estancar a hemorragia dos atritos úmidos, domésticos. Dormir no mesmo colchão apenas quando o desejo for um chamado autêntico, não um hábito fantasmagórico de possessão. Até a limpeza da caixa de areia dos gatos ganhou a dureza de um cronograma rígido. É o fim da armadilha submissa de quem sente que serve e do peso de quem suga.
Enquanto organizo meu quarto e acomodo os ramos da jiboia nesse quarto que agora é meu reduto, a voz no fone ecoa a sessão sobre o turno antirrelacional. A descolonização do inconsciente batendo de frente com a nossa nova coreografia de evitação e cuidado. Separar as contas, os lençóis... um flerte prático com a recusa antissocial? A materialização do sinthoma, a sainte homosexualité de Edelman, aquele ponto de fixação libidinal absolutamente opaco, surdo ao Outro, inútil para a pólis?
Não. É outra coisa. É a implosão da tumescência do ego, a recusa da máquina de moer identidades que é o casamento coabitado. Bersani sopra que o terror diante do sexo abjeto é, no fundo, o pavor da desintegração, da humilhação do eu. Romper a cama obrigatória é isso. Abdicar do controle. Perder a mestria sobre o corpo do outro, sobre o tempo do outro, aceitando a própria passividade diante do fim de uma estrutura. Edelman certamente diria que estamos apenas higienizando o desgaste para garantir nosso futurismo reprodutivo privado, salvando a utilidade do afeto com um acordo burguês de distanciamento. Ele, afinal, prefere a Antígona de gelo, o gozo mortífero, a pulsão de morte pura.
Mas o abismo total não me serve agora. Escorrego para a opacidade de Butler. Não a das performances fáceis, mas a fratura íntima de Relatar a si mesmo. Somos sujeitos opacos, forjados em uma matriz de relações que nos antecede, nos atravessa e nos excede. Como exigir do outro a transparência absoluta, a fusão perfeita de uma casa compartilhada, se a minha própria fundação já me escapa? Se eu sou incapaz de dar conta de mim mesmo?
Nossa separação de quartos não é o zero absoluto do Real queimando os laços sociais. É uma torção desesperada na própria lei do que é inteligível. Uma aposta arriscada no Simbólico. É desafiar a violência ética que nos obriga a ser um só, que nos acusa de fracasso quando não cabemos na norma relacional da hiperpresença. Forçamos a reconfiguração da gramática do nosso afeto para não sermos esmagados por ela, resistindo aos efeitos excludentes de um amor domesticado. O amor sobrevivendo à utilidade cínica de dividir a mesma cama todos os dias. A nuca raspada, o quarto solo, a areia dos gatos. Nada disso é a pulsão de morte vencendo. É o esforço exaustivo, quase cego, de manter o tecido vivo antes que ele nos estrangule por completo.

